Cdr aqui até onde eu sei só pode ser duas coisas, ou Corel Draw ou Comitê em defesa da Revolução. Me refiro a este último. Pois bem. A minha camareira – e este nome aqui não é nada depreciativo, é tão normal como professor, chofer, cozinheiro, médico etc – é do CDR. Desconfio até que é uma das chefas. Não sei, mas ela tem moral com as outras camareiras. E a gente sabe que na escola, assim como no país, tem informante e olheiro para tudo que é lado. Enfim, ela quer sempre saber da vida de todo mundo. Ela é super simpática e sempre tem umas conversas intermináveis sobre as dificuldades da sua vida e as dores do seu corpo. “¡Muchacha! …Imaginate tu…” Ela sempre quer saber de tudo. Ela sempre pergunta se vamos comprar cerveja. Ela nos pede para comprar com o dinheiro de “não sei quem” e paga mais caro. Ela limpa os quartos do terceiro andar 2 vezes por semana. Às vezes falta em alguns dias e reaparece em outros. Ela fiscaliza as plantas dos corredores. Outro dia quase envenenou um jarro de manjericão achando que era outra coisa. O jarro de outra coisa ela envenenou de verdade. Amanheceu tudo amarelo e murcho. Outra vez umas plantas inocentes sumiram misteriosamente. E sempre ela surge do nada, a camareira, lenço na cabeça, vassoura na mão. Será que ela pega em armas? Ela sabe de tudo o que se passa. Ela sempre me chama de “mi cielo” ou “mi niña”. Pensa que me engana. Eu não tenho intimidade suficiente, mas a minha vontade é chegar para ela e dizer ô “fulana” esse negócio de CDR, isso passa! Deixe disso… coisa mais besta. Se cada um tomasse conta da sua própria vida, o mundo seria tão melhor… Ah e avisa lá para o papai noel da tu-kola que a filha dele já tem 50 anos, já tá crescida, e quase aleijada de não poder andar com as próprias pernas. O povo é tão desconfiado, tão paranóico, nan… eu digo é valha. A medicina daqui tinha era que dar um jeito de erradicar a fofoca e a boataria, que já contagiou a todos. Mas no futuro eu vou rir, camareira, do tempo em que você achava que ia defender o seu país bisbilhotanto a vida de um bando de estudante que só pensa besteira. E vou rir do tempo em que eu achei que você era uma oficial do exército altamente treinada, que tinha a ficha de todo mundo no computador e que fazia tudo com luvas de borracha amarela, para não deixar as digitais… Eu hein… Vamos fazer análise mulher… acupuntura… porque aqui pelo menos isso tudo é de graça!
* Acupuntura em Cuba, una maravilla! Outra amiga minha faz: para sair de San António de las Breñas, 2 ou 3 x por semana, é facinho, você acorda umas 6 horas da manhã, pega um ônibus às 7h30, vai até o ponto de caminhões, entra em um pau de arara lotado, chega em Havana depois de uma hora de viagem, apreciando a paisagem e fedendo a gasolina hehe. Vai ao Hospital, atendimento coletiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiivo, a médica é um amor. E depois das agulhadas, você faz todo o percurso de volta exatamente igual, sentindo inverso ao descrito, só que dessa vez flutuando, relaxada… e com fome.

