
uma vida para fazer um upload de 50k.
eita vontade de morrer em casa….

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Domingo dia 20 de Setembro (e eu juro que não queria dar notícia fria) fizeram em Havana o primeiro concerto pelo papel higiênico, digo, pela paz sem fronteiras em Cuba. Na “Plaza de la Revolución” aproximadamente 1 milhão e 150 mil pessoas se amontoaram para ver as apresentações de Orishas, Los Van van, X-Alfonso, Silvio Rodriguez e outros artistas cubanos consagrados, além da atração principal e motivo do concerto, o cantor colombiano Juanes. Quem dyabo é Juanes (http://www.juanes.net/) ? Boa pergunta, eu preferia que fosse Tom zé… Mas enfim… eles não.
Nosotros aqui da escuela fomos ansiosos por participar do evento histórico, na mesma praça em que até o Papa se pronunciou um dia, e blá blá blá.
O show estava programado para começar às 14h e terminar às 18h. Chegamos em Havana ao meio dia e pouco…. “El índio”, que é como eles chamam o sol por aqui, estava mais forte do que nunca. As pessoas, quase todas vestidas de branco, caminhavam por todas as partes com sombrinhas e mochilas repletas de pequenos pic nics: ron e qualquer coisa para mastigar. Nas barraquinhas montadas, nada de álcool. Só se vendia sorvetes Nestlé, água e refrigerantes em temperatura ambiente. Eu ainda não entendo porque eles não conseguem gelar nada por aqui. Pula essa parte.
Comecei a caminhar rapidamente na esperança de que encontraria um lugar mais próximo ao palco. Me meti dentro da multidão e logo me arrependi de ter feito isso. O calor infernal me cozinhava no meu próprio suor. E nada de conseguir ver o palco, já que quase todos tinham suas sombrinhas abertas. Foi então que poucos minutos antes da hora marcada para o início do show a multidão começou a gritar “ Bajen las sombrillas! Bajen las sombrillas!” Grito esse que logo se converteu em “Sombrillas en el culo, sombrillas en el culo!” aí eu ri, imaginando a cena. Algumas sombrinhas se fechavam e depois se abriam. O sol estava mesmo implacável. Além disso era impossível dar um passo. Os cubanos faziam cara feia para todos que queriam mudar de posição, até mesmo aos que diziam “oye pero yo soy cubano”, ou seja, se fosse um estrangeiro o que quisesse andar… Colocaria em risco sua própria vida e talvez a paz mundial. Algumas pessoas desmaiaram, houve muito empurra-empurra, mas ao final quase todos conseguiram dançar, se divertir, gritar e cantar muito. Os que desistiram, como eu, puderam pelo menos recuperar as forças em alguma sombra, sem lamentar muito os shows perdidos, pois afinal de contas para nós marcianos essas latinidades não fazem muita diferença. Mas sempre é válido tentar se integrar. Saí desse show grudenta, com os pés pretos e pisoteados, cansada de tanto andar e queimada do sol. Não parava de me perguntar porque escolheram uma hora tão infeliz para o concerto. Poderia ser porque economizariam o dinheiro gasto com iluminação se fosse à noite? Poderia ser porque pelo fuso horário da transmissão para a Europa o show passaria em horário nobre por lá e a gente que se lasque? Poderia ser porque “El índio” é uma estrela comunista?
Pouco importa. Cuba segue em paz, sem papel higiênico, e pelo menos nesse dia, mais feliz.
** O atraso da publicação desse texto me obriga a corrigir o final. Já existe papel higiênico, todos tem as pequenas queixas de sempre e a paz continua.
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1 é pouco, dois é bom, três é demais… la cuarta es demasiado. Esta foi a quarta vez que fiz a surreal viagem Natal-São Paulo-Panamá-Havana, em direção à surreal escuela de todos los mundos, a nave espacial encalhada nas brenhas da ilha revolucionária de Cubanacán, onde tudo tem gosto de baconzitos.
Acabo de começar o terceiro ano do resto da minha vida. Ainda tenho as melhores expectativas, pois meu espírito “polyanna” não me deixa esmorecer diante de todos os sentimentos contraditórios que este lugar desperta. É muito difícil manter a concentração em um ambiente que parece feito para férias eternas. Continuo reclamando de besta. Tuc, tuc, tuc, tuc, tuc, hoy es jueves, diez de septiembre de 2009, rádio reloj, transmitiendo desde la habana, Cuba, con opciones recreativas para los proximos días. 4 y dos minutos.
……..
Estou passando oficialmente pelo meu inferno astral, mesmo assim vou tentar me animar incansavelmente, a começar por mudar de estação de rádio. Tenho aulas de telenovela toda noite e isso me deixa um pouco triste quando lembro que vai começar Viver a Vida e aqui me falam de Betty la fea. Adoro ser melodramática. Meu vizinho espanhol escutando coisas ciganas de allá me deixa um pouco melhor. E não é Gipsy kings. Decidi manter minha dieta chocolacto-vegetariana com exceção para as caldosas dos amigos… peraí que faltou energia….
Voltei. E isso aqui não é a Caverna do Dragão. Portas e janelas vão se abrir para algum parque de diversões depois. Para começar outros três atos, início meio e fim. Por enquanto o tempo passa lentamente em espanhol, trocando os vês pelos bês, como na rádio e nos corredores. Continuo reclamando de barriga cheia. Preguiça de ter que ter paciência. Estou começando o fim e o fim demora demais a acabar.
Deve ser porque na verdade nada se acaba, tudo é cíclico, e talvez o mais difícil não seja começar nem terminar e sim continuar. O “talvez” quer dizer que não acredito piamente nisso.
*** Vou tocar meu triângulo um pouco. Trouxe um dessa vez, daqueles de Cavaco chinês para ajudar a relaxar. Quem pensou besteira, muito bem, a intenção foi essa. JeJeJe Teoricamente tocar bem é uma questão de ritmo com as mãos; difícil vai ser ensinar aqui o que é cavaco chinês. Traduzindo literalmente Cavaco Chinês vai virar cabaco chino (tchino), ou seja se já não tinha sentido, agora é que não vai ter mesmo.
Mais uma sobre os vês x bês
Uma das coisas mais loucas do espanhol caribenho é ignorar a pronúncia dos vês. Ignorar não, achar que é igual ao som do bê. É uma coisa tão doida que até quando escrevem eles já estão se confundindo e metendo bê em tudo. Os vês andam em bias (vias) de extinção por aqui.
Pensando nisso alguns dos meus companheiros brasileiros que já se graduaram inventaram um curso de português para hispano-hablantes que na verdade nunca existiu, era apenas para fazer a seguinte piada: o nome do curso era “Você tá boa.” Tão somente porque os estudantes iriam ler Boce ta boa….
E tudo se encaminha para um fim de semana de apenas dois dias
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veja mais em
http://coisativa.wordpress.com
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“Mira el playgraund que tenemos para tus hijos. Natal.”
Texto (escrito assim, playgraund) de uma propaganda daí que veio circular por aqui.
E quantos cubanos vão fazer turismo em Natal antes ou depois disso? Aproximadamente 0,37.
Perderam mais uma grande chance de economizar o dinheiro da publicidade.
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Para que serve a tecnologia?
Me pergunto. Para manter nossos vícios. Ou, como alguém já disse, para resolver problemas que antes não existiam. Aqui por exemplo, estou viciada na tv do futuro. Do futuro porque imaginamos que algum dia tv, rádio, computador, telefone, Internet e quem sabe até microondas vão ser todos integrados em um aparelho só. Isso até já deve existir em alguma parte do mundo. Talvez no Japão já exista coisa bem mais moderna. Aqui nas brenhas, por enquanto, ficamos com um laptop comum, processador dual, que quando conectado a uma placa de vídeo usb, ! Diós mio!, é capaz de sintonizar os 4 canais da televisão cubana. O aparato é bizarro: ligada à tal placa de vídeo está uma antena de base piramidal, tipo aquelas de televisão de casa praia, só falta o bombril na ponta. Uma verdadeira gambiarra tecnológica.
A qualidade da imagem é igual a de um vhs estragado, sem possibilidade de melhorar. O som é uma maravilha, sempre que está sincrônico. E quando o Windows não reinicia misteriosamente a emissão é perfeita.
Nada disso nos impede, no entanto, de reavivar e manter o hábito de ver telenovelas. Todas as terças, quintas e sábados nos reunimos (mujeres only) para analisar criticamente (leia-se conversar besteira e morrer de rir) os absurdos de Páginas de la Vida. As amigas latinas já estão quase colando a foto de Edson Celulari na parede. Manoel Carlos em dublagem mexicana apresentado pela Globo internacional e Cubavisión. Muito melhor que o vale a pena ver de novo, e ainda por cima sem intervalos. Se bem que uma novela transmitida 3 vezes por semana vai demorar uns 300 anos para terminar. Mesmo assim já fico imaginando qual será a próxima reprise e torcendo para que não seja Malhação.

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http://www.youtube.com/watch?v=GYv05vkHy2Y
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01 de Janeiro de 2009. Santiago de Cuba acordou com um sol bonito de ano novo. Os turistas na rua, tirando fotos e caminhando ao redor do Parque Céspedes, a praça onde seria o Ato pelo 50 aniversário da Revolução Vitoriosa. Os boatos diziam que iam aparecer Raul, Chávez, Lula e até Fidel. Nesta manhã subi e desci ladeiras também tirando fotos e tentando prever se teria jeito de chegar perto, porque o ato era fechado para convidados dos CDRs (comitês em defesa da Revolução). Um super esquema de segurança estava montado. Perguntávamos aos guardas se seria possível assistir de longe e eles nos diziam que não sabiam de nada. Vimos um aparelho que parecia um detector de metais…. Algumas pessoas que circulavam com credenciais eram as únicas que podiam entrar no parque. Compramos o Gramma do dia histórico. Havia um certo clima de festa no ar. Tudo aconteceria às 6h da tarde, com transmissão ao vivo por rádio e tv. Como havia chance de pegar um ônibus às 2h30, decidimos perder o evento para tentar retornar à San António com alguma tranqüilidade. Já estávamos cansadas de quase 10 dias de viagem. Todos que ali estavam iriam tentar voltar no dia 2 e pelo visto realmente não seria possível se aproximar. E foi assim que perdemos de ver ao vivo Chávez, Lula e Fidel, que não foram ao evento, e não vimos Raul, que até hoje eu não sei a cara que tem.
23 de Dezembro de 2008. Terminal “La Coubre”, Havana. Os planos eram passar o Natal em Santa Clara, com uma amiga cubana e sua família, e depois seguir viagem até chegar em Santiago, onde passaríamos o ano novo e quem sabe veríamos algo do aniversário da Revolução. Na verdade o principal motivo era rever Virgem, nossa amiga Santiagueira, e sua família e tomar o melhor café do mundo, que é o que ela faz. Depois de 2h numa fila de lista de espera, percebemos que seria impossível pegar o ônibus. Resolvemos ir de máquina até Matanzas e daí arranjar algum transporte até Santa Clara. Chegamos em Matanzas às 5h da tarde e tivemos que esperar até às 10h da noite, hora em que íamos tentar pegar o trem para seguir viagem. Aí eu já estava desconfiando que ia passar mais tempo tentando me deslocar de um lugar para outro do que passeando nos lugares. Paciência. Algum sentido deveria haver nisso. Nem que fosse só para testar até onde agüentaríamos. Viajar por Cuba não é difícil, mas é sofrido. Muitos períodos de espera e muitos percursos demorados, seja pelas estradas ruins, seja pela pouca velocidade do trem, do caminhão, do bici-táxi. E haja conversa com o próprio pensamento. Os segundos passando lentamente. Encontramos um estudante cubano que nos ajudou a embarcar como clandestinas. De outra maneira não teríamos conseguido viajar ainda aquela noite. A desculpa para o funcionário do trem é que éramos todos estudantes e íamos a um congresso no dia 24 em Santa Clara. Absurdo ou não, ouvimos o maior sermão do funcionário, pagamos dobrado e ainda assim saiu baratíssimo, e viajamos em pé no pequeno espaço que há entre um vagão e outro. 3h de frio, cheiro de banheiro sujo e um barulho horrível dos vagões se chocando de vez em quando. Chegamos em Santa Clara às 2h da madrugada. Encontramos um lugarzinho no terminal para esperar o dia clarear. Tentei inutilmente controlar o meu sono. Depois de uns cochilos seguimos de bicitáxi até a casa dos nossos amigos. Foi chegar, conversar, comer, tomar banho e dormir outra vez.
O Natal foi tão simples quanto perfeito. A família era o pai, a mãe e as duas irmãs. Todos, inclusive eu, com a roupa mesmo que passamos o dia comemos, brindamos e rimos muito. Dei de presente um massageador de cabeça. E todo mundo riu mais ainda, testando o aparato incansavelmente.
Dia 25 seguimos de ônibus até Camaguey. 6h de estrada. Já não tinha assunto com minha companheira de curso e de viagens. Mas não podia deixar de ouvir meu pensamento. Haja filosofia. Futuro, passado, presente. Era preciso encontrar um lugar para dormir. Não conhecíamos ninguém em Camaguey. Achamos uma casa no centro da cidade, bom preço, até ar condicionado (!) tinha.
Uma tarde foi suficiente para conhecer a cidade. Camaguey tem o maior parque urbano de Cuba, a rua mais estreita, leões, crocodilos e flamingos presos num zoológico e mulheres de bigode soltas na rua. Vimos uma que tinha a pele tão branca, os olhos tão azuis e o bigode tão preto e tão bem aparado que chega deu medo. Às 7h da noite já não havia mas nem um fantasma na rua. Chegamos conhecer e provar a cerveja produzida na cidade. Tínima, a pior do mundo. Deve ser por isso que ninguém vai até mais tarde.
Na falta do que fazer, fomos embora.
Próxima parada, Holguin, onde vive outra colega de curso. Para chegar lá, dois caminhões.
Na fila para entrar no caminhão ouvimos uma vendedora ambulante vendendo balas. A propaganda era “Caramelos, caramelos de fábrica, vamos! Fresa, menta y piña. Vamos! Caramelos de fábrica” E uma senhorinha que estava próximo comentou: “Fábrica. Fábrica só se for da casa dela.” Depois descobrimos que os caramelos de menta eram feitos de pasta de dente. Tem lógica. A pessoa estraga e escova os dentes ao mesmo tempo…
Nem sei quantas horas foram de caminhão chacoalhando. E as pessoas olhando para a gente sem entender porque duas estrangeiras estavam viajando assim. Eu mesma ainda não entendi bem o motivo. Mas com certeza não foi só para economizar dinheiro.
Em Holguin encontramos nossa amiga e também mais dois amigos, brasileiros, que já vinham voltando de Santiago. Nos divertimos. Holguin tem um monte para subir, tem pracinhas bonitas com o povo passeando até à noite e um bar chamado Beatles que só toca música caribenha da pior qualidade. Nos divertimos, nos perdemos, nos achamos e quando comentamos que queríamos ir a Guantánamo antes de chegar a Santiago, ouvimos os conselhos hiperbólicos dos cubanos amigos. Nos diziam: vocês vão fazer o que em Guantanamo, lá não tem nada, só poeira! As pessoas são más e miseráveis. Vocês vão ser assaltadas. Melhor irem até Bayamo. De lá vocês seguem até Santiago. Lá as pessoas são pobres mas compartilham tudo. Todos lhes oferecem comida. São bons e simpáticos… Mesmo com todos os descontos aos exageros, entre o céu e o inferno escolhemos Bayamo. Que nem me pareceu esse paraíso todo. Na verdade as províncias de Cuba são bem parecidas. Ruim e bom misturado em tudo.Como em qualquer lugar.
E finalmente chegamos em Santiago, depois de 4h e 20 de viagem no tren lechero. Assim chamado porque faz tantas paradas que é como se estivesse distribuindo leite nas casas.
A cidade estava toda decorada com bandeirinhas em homenagem aos 50 anos de Revolução, bandeiras de Cuba de todos os tamanhos e cartazes de todos os tipos com mensagens sobre o ano novo e celebrando o aniversário. Em uma das pracinhas encontramos outros companheiros da escola que tinham ido a Santiago esperando uma grande festa de Reveillon e também a prometida aparição histórica das autoridades.
Os outros turistas que enchiam as ruas eram quase todos brasileiros e argentinos.
Na manhã do dia 30 de dezembro tomamos mais uma vez o melhor café do mundo, que é o que Virgem, a amiga que nos hospeda, faz. Na verdade percebi que bom mesmo era o leite e essa descoberta a princípio me decepcionou um pouco. Para salvar o mito me arrisco a dizer que existe algo naquele café que combinado àquele leite, feito daquela maneira e acompanhado daquele pão com ovo faz com que a refeição talvez nem seja a melhor do mundo, mas com certeza deve ser a melhor do Caribe.
Dia 31 de dezembro saímos cedo para dar uma volta pelos lugares menos enfestados de turistas. Escutávamos os gritos dos porcos se despedindo do ano velho e da vida. O dia lindo, agradável, e aquela matança toda não se contradiziam. Um sanguinho que escorria na beira da calçada nem fedia e lembro que achei engraçado ver umas galinhas desocupadas com o maior ar de felicidade. Tudo tranqüilo e calmo como deve ser a véspera de um feriado.
Foi então que tivemos a grande idéia de visitar o cemitério. Claro. Ano passado ficamos em Santiago por uma semana e fizemos quase todos os passeios possíveis. Entre as poucas coisas que nos faltava conhecer estava a troca de guarda que acontece de hora em hora no cemitério. Fomos caminhando, eram umas 2 horas da tarde, eu acho. No caminho tínhamos que passar pelo terminal de trens. Muita gente aí. Agitação.Bici táxis, carroças, pessoas indo e vindo. De repente uma mulher com o filho no colo resolveu atravessar a rua sem olhar. E foi aí que eu testemunhei a história: todos começaram a gritar e ninguém desgrudou os olhos. Vinha uma carroça na mesma direção que não conseguiu frear a tempo e o peito do cavalo bateu nas costas da mulher. Ela caiu por cima do filho no asfalto, e o cavalo continuou passando. Eu fiquei aliviada quando vi que o bicho não pisoteou nem a mulher nem a criança. E no mesmo instante o alívio se transformou em terror quando vi a roda a ponto de passar exatamente por cima da cabeça do menino. Virei a cara e só consegui dizer a roda passou por cima da cabeça dele, vamos embora daqui, vamos embora. Minha única reação foi querer fugir. Me dei conta de que eu era inútil e mal conseguia lidar com o meu próprio desespero. Nos afastamos, vimos a pequena multidão se formando ao redor do acidente, mas eu não prestava atenção em nada. Enquanto isso Catarina me assegurava de que a roda tinha passado perto mas não por cima. O problema foi que eu não vi esse exato instante e completei a cena tragicamente na minha cabeça. Voltamos. Já não havia nem mãe, nem filho, nem carroça. Uma mulher que tinha visto tudo mais de perto chorava descontrolada. Perguntamos e nos disseram que a mesma carroça havia socorrido as vítimas e que o menino não tinha sofrido nada além da queda. A mãe tinha quebrado a perna. Sobreviveram. Que sorte de agradecer a tudo quanto é santo, Deus, religião ou reflexo dos homens e dos animais.
Passamos a tarde relembrando o choque, e, aliviadas com o desfecho feliz, à noite conseguimos comemorar o Reveillon. Não houve fogos de artifício. Levantaram uma bandeira de cuba gigantesca e todos brindaram. Os turistas brasileiros e argentinos começaram a gritar coisas políticas que terminaram em frases como Pentacampeão… e outras bobagens de futebol. Mas a festa não esquentou. A passagem do ano realmente não se comemora muito por aqui. Cada família janta seu porco, à meia noite um brinde e depois todos dormem. Dizem que a festa mesmo é dia primeiro. Mas como fiquei sabendo depois, nesse dia a comemoração também foi discreta. Fiquei sabendo depois porque passei a primeira tarde de 2009 dentro de um ônibus, regressando a San António de los Baños. Mesmo sem ter visto, fui testemunha da história. E ainda por cima, depois de mais 14 horas de estradas e filosofia barata percebi que o sentido mesmo da viagem tinha sido manter o movimento constante. Não importa a velocidade, o que importa é não ficar muito tempo parado. E foi assim que em 9 dias percorremos mais da metade dessa ilha.
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Sem ganhar nada além de experiência – mas pelo menos passando duas semanas como se fossem 48 horas – produzimos dois programas de 25 minutos sobre o festival de cinema, mostrando quem não aparecia nas coberturas oficiais: os diretores menos conhecidos, os produtores independentes, os estudantes e o povão.
A primeira emissão foi no sábado, dia 6 de dezembro, às 11h da noite, no Canal Habana. Com reprise no domingo às 17h. O segundo programa foi ao ar dia 13, com reprise dia 14. Estreamos em horário nobre, com direito à censura e tudo.
O programa tinha uma boa abertura e vinhetas engraçadas. Mas o conteúdo em si ficou um pouco choco. Isso porque realmente não temos muita prática de tv aqui. Saímos fazendo as coisas na intuição e sem muito planejamento. O resultado foi um programa muito bem aceito aqui na ilha, em comparação aos power points que os canais cubanos costumam exibir… Mas que não é nada de extraordinário se comparado à tv (leia-se MTV) que conhecemos. O bloco que mais agradou ao público, sim, tivemos resposta do público! Foi o Vox Populi. Os cubanos adoraram ver-se opinando sobre os filmes, sobre o festival e às vezes respondendo absurdos às perguntas também absurdas que fazíamos. Aproveitando o título de um dos filmes (La mujer sin cabeza) perguntamos às pessoas na saída do cinema: “quem é a mulher sem cabeça?” Ao que nos responderam: não sei, é a protagonista, ou então, a mulher sem cabeça é a diretora. A mulher sem cabeça é Cuba.
As duas últimas respostas obviamente não foram ao ar… E que venham as férias pelo amor de Fidel.
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