Segundo dia do Primeiro encontro de montadores da EICTV. Eu estou sentada na segunda fila do Salão de Atos Glauber Rocha. Na mesa está Sylvia Ingemarsson a editora de Igmar Bergman. Na fila à minha frente estão Jacqueline Meppiel, editora de Jean-Pierre Melville, Roberto Perpignani, editor de Bernardo Bertolucci, Juliane Lorenz, editora de Rainer Werner Fassbinder, Larry Sider, editor dos irmãos Quay, Roger Crittenden, editor de Ken Russel, Annabelle Pangborn, compositora, que ja trabalhou em coisas importantes pelo Reino Unido,Miguel Lavandeira, editor de milhares de coisas importantes mexicanas e Ivan, o terrível, quer dizer, o brasileiro, graduado da EICTV, que edita e realiza coisas náo menos importantes na Alemanha. Mais ou menos famosos, o encontro é deles. Eu estava aí apenas tentando não piscar e absorver um pouco dos seus pensamentos por telepatia.
Como descrever Sylvia Ingemarsson fisicamente? se Rita Lee fosse careta e tímida, seria como ela: cabelos longos e grisalhos, loiros no passado, como denunciam ainda alguns fios. Uma franja que parece uma parede capilar, quase cobrindo os olhos azuis. E Juliane Lorentz? Se Rita Lee fosse um tanque de guerra alemão com um senso de humor incrível e falando a 300km/h, seria como ela. E Jacqueline? Se Rita Lee fosse um desenho francês tipo BelleVille Rendez-vouz, seria como ela… E quem mais? Roger Crittenden seria Rita Lee em forma de Jô Soares com a metade do peso e o dobro da altura… e os demais, os demais são outras variações de Rita Lee… Pessoas normais que já fizeram – e ainda fazem – coisas incríveis, ou por sorte, ou por acaso, ou por competência, ou por talento, ou por amor ( è a fresca? ). Pessoas que nos fazem pensar, “quero ser como eles”…principalmente pela generosidade com que compartilham suas experiências, principalmente porque se parecem a Rita Lee.
“Sylvia”, falava então de como era seu método de trabalho com Bergman. Ela diz que os dois sempre montavam os filmes do início até o final. E quando chegavam ao final voltavam ao início e iam assim remontando sempre de olho na estrutura geral, para não descuidar do ritmo do filme. Algo mais ou menos como se não houvesse um primeiro corte, ou seja, que desde o início já trabalhassem sobre a versão final do filme, sempre começando pela primeira cena, e assim por diante até a última. Neste ponto os outros conferencistas começaram a fazer comentários, cada um colocando o seu método, e esquecendo um pouco o protocolo do evento, o que fez esse instante muito mais delicioso para nós, “estudantes-moscas”, loucos para pescar alguma dica preciosa sobre a arte oculta do fazer cinematográfico, como se estivéssemos espionando uma convenção dos bruxos editores, em que eles falavam seus segredos só entre eles. “Juliane” disse que “Rainer” sempre tinha tudo muito claro desde o roteiro, por isso ela fazia um primeiro corte bruto, que pouco a pouco seria modificado ou não em sua estrutura, e só depois faziam um corte fino e definitivo. “Jacqueline” então falou que também achava interessante a idéia de montar as seqüências separadamente e depois uni-las para armar o que seria o longa-metragem completo, ou seja, para ela seria possível começar por qualquer parte do filme, do meio, do fim ou do princípio, sem prejudicar o ritmo geral. Foi quando “Perpignani” falou: na Itália quando se unia a película com cola era preciso montar o filme de uma vez, já como se fosse a versão final, pois era impossível descolar as partes, ou seja, desfazer cortes. Depois que passamos a usar a Scotch tape, ou seja, a fita durex, o método mudou um pouco, e se podia trabalhar um primeiro corte e depois modifica-lo a vontade, experimentar com ele, até chegar ao corte final. Era o controuzë analógico. E todos serguiram dando exemplos e opiniões que agora estão em alguma parte do meu inconsciente, e acabaram chegando à conclusão de que cada um tem seu método e todos são válidos, que o cinema é uma das coisas que tem mais regras e menos receita nesse mundo, que o importante é experimentar e trabalhar incessantemente, e tantas outras coisas. Os comandos mudaram de nome, as moviolas se transformaram em avids ou final cuts, em premieres ou movie makers… e os editores continuam inventando métodos, editando com seus cérebros, dúvidas, emoções, apuros, nervos, e tentando em vão fazer milagres.