Estamos pensando em ir te visitar. Me disseram pelo telefone. Eu falei sem pensar duas vezes: Pois venham que eu estou esperando. Depois dessa resposta eles se sentiram (eu acho) um pouco obrigados a vir; e eu tinha acabado de dar um xeque-mate telefônico por acaso. Esperei a chegada dos dois com toda emoção, expectativa e ansiedade, marinheira de primeira viagem que era. Algumas semanas mais tarde os recebi no aeroporto, filmadora em punho, para registrar o parto.Senti como se tivesse parido um casal de filhos que, como Macunaíma, vieram ao mundo adultos. Dizem que filho é a melhor coisa do mundo. Mas agora eu tenho certeza de que na verdade a melhor coisa do mundo é pai e mãe. Os dois já estão prontos, sabem andar, falar, ir ao banheiro sozinhos, atravessar a rua, você não precisa ensinar nada, só tem que aproveitar para mimar e ser mimado. Quis saber o tempo todo se tinham frio, calor, fome ou sede, se estavam cansados, o que queriam fazer, se queriam tirar fotos, para onde queriam ir… andava na frente e olhava para trás para ter certeza de que os dois me seguiam. Eu, como guia em uma cidade que nem bem conheço ainda, faltando as aulas de direção de atores para dirigir meus pais para lá e para cá. E como nos divertimos, conversamos, caminhamos, nos aventuramos, falamos portunhol… Dias intensos, de fazer muita coisa e deixar muita coisa por fazer também.Mas foi muito muito bom. Descobri que o sentido da vida de um filho pode estar nos pais. E vice-versa. Acho que estou virando gente. O melhor, e aí é que entra a ironia, foi tomar café da manhã todo mundo junto, como se estivéssemos em casa, mesmo que em casa a gente quase não se encontrasse de manhã. Parece que o que valoriza os momentos que passamos juntos são justamente os momentos em que estamos separados. E para voltar é preciso ir. Só sei que eu não tomo mais café da manhã aqui.
Paimãefilhofilha, ou a ironia é uma grande figura
Março 2, 2008 · 3 Comentários
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3 respostas Até agora ↓
Marina Cruz // Março 12, 2008 às 2:00 am |
Interessante essa idéia sobre pais e filhos. Quando estamos crescidos, onde se encaixa a idéia da figura de pai e filho? Quem mima quem?
Abração e parabéns pelos vídeos.
Gisele // Abril 2, 2008 às 1:15 am |
A menina foi filhote de cineasta e vai voltar escrivinhadeira. Que lindo…
Bellinha // Abril 4, 2008 às 7:54 pm |
Nandinha, você colocou pra lascar nesse texto. Não sabia que escrevia tão bem.
Acho que é por isso que eu tenho tanta vontade de ir. Pra ir e ver de lá o que minha cegueira/orgulho/pressa me impede de ver daqui. Olhar pra cá com olhos de lá. Uma ironia mesmo.
Beijos saudosos!