Há alguns meses passei por mais um “causo” da cubania e esqueci de fazer o relatório. Mesmo com tanto atraso, acho que vale a pena, então vamos aos apuntes: fui à Havana não por saudade daquele lugar e tampouco porque tinha alguma coisa muito interessante e imperdível para fazer. Apenas precisava sair do meu retiro latino-cinematográfico-rural. Precisava ver mais gente e menos verde. Enfim. O plano era tão simples quanto dar a volta no quarteirão. Queria ir a uma padariazinha perto do cine La Rampa, que é perto do Hotel Nacional, que é perto do Malecón, que é perto de Copélia, que é perto de onde pára o ônibus da escola, ou seja, tudo parecia fácil demais.
A padaria é totalmente yumática. Pausa. “Yuma” é a palavra para definir tudo que é estrangeiro, de estrangeiro ou para estrangeiro, então “yumática” é para dizer que a padaria parece um lugar fora de Cuba, mesmo estando dentro. E é freqüentada por cubanos yumáticos e yumas yumáticos, como eu.
O lugar é pequeno e simples, parece uma dessas lanchonetezinhas de beira de hospital, com pães, salgados e doces expostos no balcão, café, refrigerantes, suco, mini-pizza, mesinhas confortáveis para passar o tempo comendo besteiras. Tudo que eu queria.
Estranhamente nesse dia não tinha muita gente. E o motivo era que ao meio da tarde os funcionários resolveram trocar de turno: abriram a caixa registradora, começaram a fazer contas, conferir números e os clientes, paciência.
Resolvi esperar já que tinha muito tempo de sobra e poucos CUCS no bolso. Vi todos os doces, todos os salgados, bebidas, biscoitos, decidi o que ia pedir, sentei.
Espera.
De vez em quando dava uma olhada para o caixa, para ver se o turno estava trocado.
Leeeeeeeeeenta.
Pensei comigo mesma: pelo menos vou ser a primeira da fila quando a mulher recomeçar o atendimento.
Espera.
De repente, não sei se pisquei, não sei se me distraí, se entrei num lapso de tempo… Quando dei por mim havia uma fila formada do caixa até a porta da padaria. O lugar cheio, eu na mesa como uma derrotada, pensando: mal terminaram de trocar o tal do turno e automaticamente se formou a droga da fila. Pior que jump cut. Parecia que estavam todos escondidos esperando uma senha, um sinal, parecia que a fila já estava formada, virtualmente. Fui para o final.
Espera.
Espera.
Espera.
Quando se aproxima a minha vez a senhora que está à minha frente decide ir embora. Antes, porém, faz questão de me dizer, Mira, yo me voy a…. não lembro o que ela disse aqui e continuou pero estoy detrás de esa muchacha. E apontou a mulher que estava na frente dela. Ela queria que eu marcasse o lugar. E eu disse si si. Para ganhar uma posição. Se há uma fila, o cubano está nela, mesmo não estando fisicamente. Tem sempre alguém marcando o lugar do outro. E na hora que você acha que vai ser a sua vez, aparecem umas trezentas e setenta e oito pessoas que estavam antes de você. Todos perguntando e querendo saber “e você está atrás de quem”, “e quem está antes”, “e quem é o último”, “é aquele senhor de camisa vermelha”, “eu não sei, só sei que eu estou atrás dele”, “é aquela mulher com o menino, ela estava aqui e volta já.”
Chegou a minha vez, fiz o pedido, paguei, recebi, comi, ainda fiquei um tempão na mesinha conversando com meus amigos. E nada da mulher voltar. Será que essa era doida? Será que deixou seu lugar marcado comigo só por precaução ou por força do hábito? Será que saiu, encontrou outra fila que lhe interessou mais, entrou e ficou por lá, guardando o lugar de outros 500? Sei lá, eu só sei que eu ri até chorar pensando no seu lugar ridículo que eu acabei ganhando e perdendo. E no ridículo que é essa obsessão por saber a ordem das pessoas nas filas.
Naquela hora teve graça. E valeu a pena esperar pelo lanche.
kkkkkkkkkkk, perfeitoooo! volta logo dessa fila!!
ainda bem que o fim desse exercicio de paciencia esta proximo.
É um alento ver o tamanho das filas fora de São Paulo, rsrsrsr
Eita Fernanda! Já que estás no fim do curso em Cuba, aproveite os últimos momentos. Dizem que o melhor das viagens é o início e o final.
Um grande abraço!